Quando discordar também faz parte da clínica
Uma pesquisa recente chamou atenção para um ponto que parece óbvio, mas nem sempre é tratado assim: mesmo entre cientistas altamente especializados, não existe consenso absoluto sobre várias das grandes questões de suas próprias áreas.
E isso não significa que esses profissionais não saibam o que estão fazendo.
Significa que, diante de fenômenos complexos, pessoas competentes, bem formadas e trabalhando a partir de um mesmo corpo de conhecimento podem chegar a interpretações diferentes. A ciência não avança apenas por consenso. Ela também avança pelo confronto entre hipóteses, pela revisão de modelos e pela possibilidade de sustentar uma leitura diante das evidências disponíveis.
Na psicoterapia e na psicanálise, talvez precisemos lembrar disso com mais frequência.
A clínica não é uma atividade em que dois profissionais necessariamente olharão para o mesmo paciente e chegarão à mesma compreensão. Mesmo quando possuem formações semelhantes, podem privilegiar aspectos diferentes da história, do discurso, das relações, dos sintomas e das repetições daquele sujeito.
Um profissional pode compreender determinado comportamento como uma defesa. Outro pode perceber ali uma tentativa de preservar um vínculo. Um terceiro pode considerar que aquele sintoma ocupa uma função importante na organização psíquica do paciente.
Essas diferenças não significam automaticamente que alguém esteja errado.
Na clínica, interpretar não é simplesmente “dar uma opinião”. Uma formulação precisa estar sustentada pelo material apresentado pelo paciente, pelo conhecimento teórico do profissional e pela maneira como aquela hipótese se confirma — ou não — ao longo do processo terapêutico.
É justamente por isso que duas leituras diferentes podem ser clinicamente legítimas.
O problema começa quando confundimos divergência com incompetência.
Existe uma expectativa, às vezes explícita e às vezes não, de que bons profissionais deveriam chegar às mesmas conclusões. Como se houvesse uma única leitura correta para cada caso e qualquer diferença entre profissionais fosse sinal de erro.
Mas seres humanos não são equações fechadas.
Uma pessoa não chega à psicoterapia apenas com sintomas isolados. Ela chega com uma história, relações, conflitos, modos de se defender, formas particulares de sofrer, de desejar e de interpretar o mundo. E nenhum desses elementos existe de maneira completamente separada dos demais.
Isso torna a clínica inevitavelmente complexa.
Na psicanálise, essa complexidade aparece de maneira ainda mais clara porque não trabalhamos apenas com aquilo que o paciente diz conscientemente, mas também com repetições, contradições, silêncios, transferências, modos de se relacionar e sentidos que vão sendo construídos ao longo do tratamento.
Por isso, uma hipótese clínica nunca deveria funcionar como uma sentença definitiva sobre alguém.
Ela é uma construção.
E, como toda construção clínica responsável, precisa permanecer aberta à revisão.
Talvez esse seja um dos pontos mais importantes: aceitar a possibilidade de divergência não significa aceitar qualquer interpretação.
“Essa é a minha leitura” não é suficiente.
Uma leitura clínica precisa ter coerência, fundamentação teórica, respeito aos limites éticos da profissão e, sobretudo, capacidade de se modificar quando o próprio paciente apresenta elementos que contradizem aquilo que o profissional imaginava inicialmente.
Em outras palavras: a clínica não exige unanimidade.
Exige responsabilidade.
Dois profissionais podem discordar profundamente e, ainda assim, ambos estarem realizando um trabalho sério. O que diferencia uma divergência produtiva de uma interpretação arbitrária não é o fato de todos concordarem, mas a capacidade de cada profissional explicar como chegou àquela compreensão e permanecer disponível para revê-la.
Talvez possamos aprender algo com a própria ciência nesse ponto.
Em áreas extremamente sofisticadas do conhecimento, divergências entre especialistas não são necessariamente tratadas como fracasso. Muitas vezes, elas são justamente parte do processo de compreender fenômenos que ainda não podem ser reduzidos a uma única explicação.
Na clínica, algo semelhante acontece.
Cada paciente é um fenômeno complexo demais para caber perfeitamente em uma única teoria ou em uma única leitura.
Por isso, quando dois profissionais pensam de maneira diferente sobre um mesmo caso, talvez a pergunta mais interessante não seja:
“Qual deles está certo?”
Mas:
“O que cada um viu nesse paciente para chegar a essa compreensão?”
Essa mudança de postura transforma a divergência em possibilidade de pensamento.
E talvez seja exatamente isso que uma boa clínica deva preservar: não a certeza absoluta sobre o outro, mas a capacidade de continuar pensando sobre ele.



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